Como fazer para meu trabalho ser valorizado? Trabalho em uma empresa há quatro anos, gosto do que faço e me dou bem com o meu chefe. O problema é que ele toma para si o crédito da maior parte do meu trabalho, uma vez que ele é mais articulado, bem relacionado e político do que competente e produtivo. Sinto que minhas realizações não são reconhecidas pelos gestores e que ninguém dentro da organização faz ideia do duro que preciso dar diariamente. Como posso fazer para ser valorizado sem precisar entrar em conflito com o meu chefe? Uma das características mais marcantes do modelo brasileiro de gestão é a predominância do estilo autoritário no exercício do poder. No Brasil, as pessoas que ocupam um cargo de comando tendem a exercê-lo com um poder discricionário, inibindo a participação, apropriando-se de contribuições e evitando o conflito positivo na relação com os que estão sob sua direção. Ao subordinado, cabe a posição silenciosa de evitar o conflito, temendo por seu emprego. O resultado é uma grande ineficiência das nossas organizações na forma de passivos intangíveis. Isso explica, em parte, a baixa capacidade do Brasil de criar um contexto para a inovação. O executivo brasileiro é reconhecido por sua capacidade individual de se adaptar a contextos e culturas diferentes, se relacionar com facilidade e ser flexível, mas as nossas organizações tendem a ser ineficientes. Esse modelo tende a trabalhar no nível de competência mínima das pessoas e gera um grande desperdício do capital humano. A situação que você descreve parece estar relacionada a esse padrão de comportamento. A necessidade de manter o foco em relacionamentos em detrimento ao foco em resultados é um sintoma típico do modelo brasileiro. Com frequência, pessoas ascendem nas organizações brasileiras porque dominam a habilidade de se relacionar. Essa habilidade não é um mal em si, mas quando representa a única via para a ascensão profissional nas organizações, baseando-se em personalismo e lealdade pessoal, torna-se uma via ilegítima aos olhos da coletividade porque é destituída de valores éticos que constroem a noção do mérito e a percepção de justiça. Lutar isoladamente por reconhecimento dentro de uma cultura organizacional em que esse modelo brasileiro de gestão prevalece sobre o sistema de reconhecimento individual não me parece eficaz. Existem várias empresas no Brasil que apresentam soluções excelentes para enfrentar os desafios impostos pela nossa cultura e conseguem gerar ativos intangíveis que representam diferenciais competitivos, neutralizando em parte os vícios do nosso modelo. Avalie se vale lutar como um Dom Quixote por reconhecimento depois de quatro anos. Talvez seja a hora de assumir as rédeas da sua carreira e mover-se por conta própria para revelar seus talentos. Lembre-se que vivemos na era do conhecimento, onde cabe a cada profissional gerenciar a sua própria carreira.
Por Marco Tulio Zanini


