Como troco de emprego sem causar prejuízos?
Marco Tulio Zanini responde para o Jornal Valor Online

Sou responsável pela operação brasileira de uma multinacional. Anualmente, a empresa reúne os representantes das filiais de todos os países para definir investimentos e traçar as estratégias. Recentemente, recebi uma proposta de emprego irrecusável e estou negociando essa movimentação. O problema é que só vou ter a confirmação oficial durante o encontro da minha atual companhia. Tenho medo de me desligar antes da viagem e correr o risco de algo dar errado. Ao mesmo tempo, como apenas o principal executivo de cada unidade é convocado, acho que prejudicaria muito a empresa se pedisse demissão assim que voltasse da reunião. O que faço?

Há uma ética no capitalismo. Com o surgimento desse tipo de ordenamento do mercado, pôs-se fim à servidão medieval, ao escravismo e a todas as outras formas de subordinação e dependência. Mas essa ética não é a da lealdade pessoal, dos vínculos econômicos baseados em sacrifícios pessoais ou das opções economicamente menos proveitosas.

Pensando como Adam Smith sobre a essência do capitalismo, não é da benevolência do açougueiro e do padeiro que recebo todos os dias a carne e o pão a um preço justo. É na busca do interesse egoísta de cada um que a mão invisível do mercado produz os melhores resultados coletivos.

Quando os trabalhadores optam pelo melhor emprego e aumentam seus desafios e suas possibilidades de entregar resultados, a produtividade da economia aumenta como um todo. O empregador que perde trabalhadores nesse jogo precisa se esforçar para ser mais produtivo e ficar em condição de fazer melhores ofertas. Não se espera que as empresas retenham funcionários pouco produtivos por benevolência e nem que estes prefiram empregos piores por lealdade.

Os interesses próprios fazem parte do jogo do mercado aberto. Na ética capitalista, é legítimo ao empregado buscar um melhor emprego, e a empresa um melhor empregado.

Isso não significa um vale-tudo, pois cooperação, confiança e reputação são fundamentais nesse jogo.

O nosso mercado está aquecido e a luta por talentos, mais dura. Buscar as melhores opções nesse cenário é saber aproveitar as oportunidades. As empresas e os empregados farão isso. O desafio para você neste momento é sair da sua empresa atual sem deixar um rastro de perdas e destruição.

Preparar um sucessor é o melhor caminho, e você não deveria estar sozinho nessa empreitada. Garantir a formação de sucessores é um dos pilares da gestão estratégica de pessoas e, se a sua empresa não está cuidando disso, talvez acorde para o problema com a sua sucessão.

Nenhuma organização pode ficar dependente de indivíduos específicos. Mesmo as companhias familiares mais bem capacitadas hoje enxergam isso e fazem um grande esforço para substituir o fundador sem perdas. Não podemos esquecer que muitos insubstituíveis estão hoje no cemitério e a vida continua como sempre. Sua participação em um único evento, sem a presença de alguém que você esteja treinando, não pode causar um estrago tão grande. Caso você saia, deve haver quem possa situar o seu sucessor.

Tome a decisão privilegiando o seu interesse pessoal, cuidando em deixar a sua empresa atual na melhor condição possível para a continuidade das operações.