Devo abrir o jogo sobre a demissão da equipe?

Vicky Bloch responde

Sou o responsável pela operação de uma multinacional francesa no Brasil. Recentemente, a matriz decidiu extinguir um braço de seus negócios globalmente no início do ano que vem. Aqui, o departamento é composto por cinco pessoas esforçadas e competentes. Como a equipe sabe que o negócio não está indo bem, ela está buscando soluções e trazendo ideias e para que eu apresente à matriz. O problema é que a decisão já foi tomada pelos executivos franceses e eles nem querem ouvir. Para piorar, não poderei realocar esse grupo e precisarei demiti-lo. Devo fingir que nada está acontecendo e deixar o pessoal "quebrando a cabeça" ou já prepará-lo para o pior, mesmo sem poder contar a verdade?

Country manager, 52 anos

Resposta:

Esta é uma situação bastante complexa. Se eu pudesse dar uma orientação à matriz da sua empresa, diria que abrisse o jogo à equipe e oferecesse um pacote de retenção para que as pessoas permanecessem na organização até o fechamento da unidade.

Com base na minha experiência de 22 anos atuando com transição de carreira, eu diria que, nesse tipo de situação, falar a verdade o quanto antes é a melhor saída. Quando são comunicadas com dignidade e transparência, as pessoas respondem positivamente e, se bem amparadas do ponto de vista financeiro e de benefícios, tendem a se comprometer ainda mais com a organização.

No que diz respeito ao seu papel nesse processo, também diria que encerrar uma unidade de negócio sem problemas pode se tornar um adicional no seu currículo. Demitir é uma função inerente a qualquer gestor de pessoas, e é também uma das tarefas mais árduas que se pode enfrentar na carreira. Se você é um profissional maduro e experiente, provavelmente já passou por isso em outras situações e sabe como as coisas funcionam. Se conseguir garantir o comprometimento dessas pessoas para fechar o departamento com dignidade, usando essas ideias criativas, inclusive, vai ajudar também a não impactar negativamente o restante da empresa.

Sabemos que passar por cima de uma decisão da matriz pode trazer um risco para o seu emprego e para a sua imagem. No seu lugar, eu insistiria com a matriz para abrir a informação à equipe e mostraria aos meus superiores os benefícios disso. Se a multinacional é de capital aberto, existem regras quanto à divulgação de informações. Independentemente disso, deve-se trabalhar para que a comunicação interna seja feita o quanto antes. Até porque a decisão também envolve diretamente outros stakeholders como clientes, fornecedores e parceiros, que também precisam ser comunicados. A pior situação para uma equipe é ficar sabendo dessa decisão por rumores do mercado - o que inevitavelmente vai ocorrer mais cedo ou mais tarde.

Muitas vezes as empresas preferem não abrir informações dessa magnitude com medo de que os funcionários possam boicotar a companhia ou fazer corpo mole. Mas, na verdade, ocorre o contrário: se você comunica de forma transparente e oferece um pacote de saída, cresce exponencialmente a chance de que essas pessoas fiquem com você até o final. Agora, se elas souberem por conversas de corredor que o departamento em que trabalham será extinto e que todos ali perderão o emprego, aí sim elas se sentirão traídas e corre-se o risco de elas arranharem a imagem da empresa interna e externamente.

Sua obrigação como gestor é fazer essa articulação com a matriz da melhor forma possível. Deve ter a capacidade, inclusive, de comprovar aos seus superiores, se for o caso, que o negócio pode voltar a ser rentável caso a equipe realmente traga boas ideias no curto prazo.

Mas levanto também uma questão importante: se você, do ponto de vista pessoal, sente que não está mais alinhado aos valores dessa empresa ou se sente violentado com a forma como foi tomada essa decisão, tem uma saída que é deixar a organização e buscar novas oportunidades no mercado

Vicky Bloch é professora da FGV, do MBA de recursos humanos da FIA e fundadora da Vicky Bloch Associados

Bookmark e Compartilhe