Devo ficar na empresa só pelo peso no currículo? Diretor de tecnologia, 33 anos: Resposta: Santo Agostinho, em seu livro clássico, "A Cidade de Deus", ao organizar a justificativa sobre o sofrimento dos justos, fala sobre o dever humano de controlar e combater o mal, não se omitindo ou se associando aos ímpios por medo de se expor, por desejo de reputação, aprovação ou outros ganhos sociais. Ele chama a atenção para o fato dessa associação transformar o ímpio e o justo na mesma matéria humana, pessoas que por amor aos bens temporais se associam com aqueles que abominam. A sua questão nos remete ao cerne desse alerta do Santo. De certa forma, na mesma direção, mas naturalmente guardando as devidas proporções, segue a argumentação da filósofa Hannah Arendt no livro Eichmann em Jerusalém. Ao ser acusado de crime contra a humanidade, o gênio da logística alemã Adolf Eichmann, sem o qual a máquina mortífera de Hitler não teria conseguido a escala que alcançou, alega ser apenas um funcionário cumprindo ordens de Estado em uma organização burocrática. Isso nos leva à questão que você levanta: se a organização em que se encontra é liderada por pessoas cujos valores são discutíveis, faz negócios e atinge seus resultados por meio de ações cuja ética é contestável, que reputação pessoal você pretende construir aí? Lembre-se que, muito mais do que as suas palavras, as suas escolhas falam sobre você e o quanto você está disposto a ceder em seus valores e crenças pessoais por ambição. Não que a ambição de construir reputação por meio do trabalho seja ilegítima, muito pelo contrário. Mas a sua vida profissional vai ficar marcada por essa experiência e pela sua conivência com os valores e práticas dessa organização. Você será um ex-organização X. Ou seja, você será reconhecido como um deles. Essa reflexão nos ajuda a compreender que a questão que você nos traz pode parecer trivial, mas já atormenta a humanidade há muito tempo. Atualmente, o mundo corporativo é marcado por padrões de comportamento ambíguos que geram reputações duvidosas. O mundo do trabalho está sedento por expressões legítimas de ações baseadas em valores que possam construir um ambiente produtivo onde as pessoas encontrem espaço para trabalhar em seu nível de competência máxima. Atitudes desprovidas de sentido e orientação moral geram conflitos pessoais e uma atmosfera de grande descrédito quanto à capacidade de criarmos ambientes de trabalho que realmente possam produzir resultados superiores baseados em valores éticos sustentáveis. Portanto, aconselho que você busque imediatamente novos mares para navegar. Não permaneça numa empresa, principalmente se você não encontra aderência aos valores e a política organizacional. Além disso, ficar nesta organização pode lhe trazer outros prejuízos, afetando suas relações familiares, a sua motivação e satisfação pessoal. No nível profissional em que você se encontra as chances de encontrar uma nova posição são boas, mas o processo de seleção pode levar um bom tempo. Portanto comece imediatamente. Marco Túlio Zanini é professor de gestão de ativos intangíveis e estratégia de pessoas da Fundação Dom Cabral
Marco Túlio Zanini responde
Atuo há apenas seis meses em uma empresa líder no seu setor. Embora ache esta uma boa oportunidade profissional, tenho uma péssima relação com os gestores. Não concordo com os valores e a política da organização. Tenho pensado em procurar outro emprego, mas acredito que trabalhar por mais tempo nessa companhia pode valorizar muito o meu currículo. Devo ficar e aguentar por mais tempo ou buscar uma colocação no mercado que não seja tão significativa para minha carreira, mas onde eu me sinta mais feliz?


