Devo ficar se a minha empresa não é ética? Marco Tulio Zanini - responde Recentemente, fui surpreendido quando um gerente, de outro departamento, disse que não trabalharia em um projeto comigo em hipótese alguma. O problema é que eu tenho evidências fortes (porém sem provas conclusivas) de que ele está envolvido em irregularidades. Levei o problema para a diretoria, porque tenho a convicção de que ela não está envolvida nesses desvios. Porém, eles me disseram que o profissional em questão "é o melhor na sua área e insubstituível". Curiosamente, me foi dito que já tinham conhecimento dos fatos e apenas estariam prestando mais atenção em tal pessoa. Além da questão moral de trabalhar em um local em que esse comportamento é tolerado, como devo fazer para manter a minha motivação? Eticamente, estaria obrigado a pedir demissão imediata? Gerente, 37 anos Resposta: É importante fazer uma autoanálise para compreender a sua reação emocional a essa situação e refletir, inclusive, sobre as suas suspeitas. O que você desejava e que não foi realizado nesse caso? Ou seja, o que essa situação representa em termos de frustração para você, sobre a imagem que você formou sobre esse gerente e suas certezas em relação a ele? Use essas reflexões para entender melhor as suas reais motivações. Sobre as suas suspeitas: qualquer um que tenha lido Sherlock Holmes sabe que nem tudo o que parece, realmente é. Por isso, a investigação criminal é uma atividade tão complexa. Se, apesar dos indícios, a diretoria mantém esse gerente é porque pode ter outras suspeitas e acha que esse indivíduo pode ajudar a solucionar a questão. Ou ela pode estar vendo nas fraudes apenas a ponta do iceberg de uma rede criminosa maior, e o suspeito está nessa posição para que a diretoria possa observá-lo para desmontar o esquema. Ou ainda se ela tem informações que você não tem, tanto sobre o indivíduo em questão quanto sobre os problemas, e não há relação entre as fraudes e o tal gerente. Até mesmo se ele detém algum recurso fundamental para a companhia nesse momento e as perdas seriam insignificantes em relação aos benefícios que ele pode trazer para a organização. Ou se na falta de provas conclusivas, a diretoria achou prudente esperar para não cometer uma injustiça, sabendo dos danos que ações precipitadas em assuntos dessa natureza podem causar na empresa. Sobre a questão ética, pelos dados que você apresenta não vejo razão para se precipitar. Reflita sobre a metáfora bíblica do joio e do trigo. Eles são muito semelhantes. É necessário esperar que cresçam para poder separar de forma justa, não matando o trigo por imaginar que seja joio. Na realidade, do ponto de vista ético, quando você diz que foi até a diretoria para falar do caso, foi você quem acusou sem provas. E acredite: a nossa imaginação pode ser muito fértil estabelecendo causas e relações que não existem. Ao acusar a diretoria de não agir com base nas suas suspeitas, você novamente está atribuindo falha ética sem saber se realmente essa é a questão. O fato é que você parece não ter ainda informações suficientes para julgar, mas não se exime de fazê-lo. Como conselho profissional, eu diria que você deve permanecer na empresa e tentar aprender com a situação. A sua reação me parece precipitada e emocional, e você não parece ter consciência disso. Você pode, sem querer, ter parecido imaturo e infantil em ir até a diretoria para falar de algo tão grave. Se você sair agora, sairá se sentindo o bastião da ética e da justiça, alguém que, como Dom Quixote de La Mancha luta contra monstros imaginários. Isso não vai te trazer nenhum bem. Fique, enfrente as suas frustrações e aprenda a se relacionar com situações dessa natureza. Se, no tempo, as suas suspeitas se confirmarem, aí sim aconselho que saia. Marco Tulio Zanini é professor de gestão de ativos intangíveis e estratégia de pessoas da Fundação Dom Cabral


