Devo reclamar se vou ficar sobrecarregada?
Gilberto Guimarães responde
Estou há um ano em uma empresa onde sempre trabalhei em dupla com um profissional bem experiente. Há duas semanas, ele deixou a companhia e meu chefe decidiu contratar dois funcionários mais juniores para ocupar seu lugar. Minha intuição diz que essa troca não vai funcionar, pois a função exige grande responsabilidade e vou acabar sobrecarregada. Tenho vontade de explicar isso ao meu chefe antes de ele finalizar a contratação, mas tenho medo de minha sugestão ser mal interpretada. Devo expor minha preocupação ou aceitar sua decisão?
Coordenadora de TI, 32 anos:
Resposta:
Acho que você pode e deve procurar seu chefe. Sempre vai ser interessante trocar ideias com ele. Uma equipe só passa a ser uma "comunidade produtiva" quando os objetivos e intenções de cada um são compartilhados e aceitos por todos. Nesse momento, o fator mais importante é definir seus objetivos e intenções antes de falar com ele. O que você espera que aconteça? O que você espera dele como resultado desse "papo"?
Seria bom, talvez, você primeiro ouvir o que ele tem a dizer. Fazer o que se chama de uma "audição ativa", ou seja, procurar entender e aceitar as ideias e opiniões do outro. O que ele tem em mente? O que ele pretende desses novos membros da equipe? O que ele espera que você faça?
A sua intenção é explicar as consequências da "juniorização" que aparentemente ele está promovendo. Isso pressupõe que você acha que ele não saiba os resultados que poderão advir. Será que isso é possível? Sempre prefiro acreditar que as pessoas sabem o que estão fazendo.
A "juniorização" tem sido frequente em algumas atividades e setores como vendas, atendimento, publicidade, informática, consultoria organizacional, jornalismo entre outros. Existem causas e razões para isso, diferentes em cada caso.
Na maioria das vezes, porém, é simplesmente redução de custo. As empresas, concentrando o foco sobre suas atividades mais lucrativas e automatizando seus processos, despedem empregados com remunerações elevadas, mais velhos e menos adaptados aos processos modernos. Jovens profissionais entrando na carreira custam menos que antigos.
Em outros casos, é para promover um choque de modernidade. Algumas áreas e setores passam por uma enorme ruptura tecnológica. Novas mídias, novos softwares, novas técnicas, novas cabeças. Jovens conhecem isso melhor.
Em outras situações, isso serve para promover um choque motivacional. A forma de remuneração tem sido diretamente ligada ao cargo e ao "tempo de casa". A impossibilidade legal de redução salarial e a estabilidade são fatores de evolução dos salários e de promoções, o que acaba criando um efeito perverso. Profissionais antigos acabam tendo uma remuneração muito alta, se apegam ao cargo e baixam a guarda. Acabam produzindo menos que os jovens, muitas vezes mais motivados e melhor preparados. A troca tem sido inevitável.
Qualquer que seja a razão, o importante é que sua empresa trocou um sênior por dois juniores. Você permaneceu. Isso parece ser uma excelente oportunidade. Como você imagina, isso pode custar uma quantidade maior de envolvimento e de responsabilidade de sua parte. Mas isso também significa mais liderança. Seria muito ruim? Nessa nova estrutura da equipe você pode assumir uma posição mais importante e influente.
Você pode e deve procurar seu chefe. Contudo, ao invés de questioná-lo, aproveite para descobrir o que ele espera de você e se coloque a disposição para apoiá-lo nesse momento. Mostre a ele que você está preparada para ser uma boa comandante. O bom líder é aquele que avalia e prevê o que vai acontecer. Ele tem de antecipar, de estar atento e vigilante. O futuro não é uma adivinhação, nem ocorre ao acaso. É a consequência do que já está acontecendo.
Gilberto Guimarães é diretor do MBA em liderança e gestão de pessoas da Business School São Paulo e presidente da multinacional francesa BPI no Brasil.


