Devo revelar meu plano de engravidar?

Vicky Bloch - responde

Estou em busca de uma nova colocação e ao mesmo tempo fazendo um tratamento para engravidar. Na verdade, procurei escolher um dos dois focos- profissional ou pessoal- mas o tratamento está levando mais tempo que o esperado, de modo que resolvi continuar com meu plano de carreira. Meu dilema é: devo abrir o jogo nas entrevistas? Do ponto de vista da empresa, imagino que ela gostaria de saber que uma executiva estará indisponível no médio prazo. Mas o tratamento de gravidez pode levar anos ou até não funcionar. No meu caso, já faz quase um ano. Como a possível empresa contratante enxergaria o fato de eu engravidar logo após ser contratada?

Gerente, 34 anos

Redator da Editoria:

Garanto que, neste momento, muitas mulheres que estão lendo esta coluna se identificaram com o seu dilema. Dúvidas sobre como conciliar carreira e maternidade assolam a maioria das mulheres que trabalham. Mesmo tendo decidido dar prioridade a uma questão pessoal, que é ter um filho, entendo que é muito difícil esse momento de "stand by" enquanto a gravidez não ocorre. E, como você mesma diz, isso pode acontecer no próximo mês ou demorar um bom tempo. A sensação é de que sua vida toda está parada esperando a gravidez, não é mesmo? Levar a carreira adiante, portanto, me parece uma decisão acertada. Até porque, dessa forma, você desvia o foco da gravidez - e isso pode, inclusive, ser benéfico para o tratamento.

Quanto à dúvida sobre abrir ou não o jogo nas entrevistas, por princípio sou sempre a favor da transparência. Acredito que a omissão e a mentira, além de não serem valores dignos, a qualquer momento podem se voltar contra você. Mas também admito que existe, sim, preconceito por parte de muitas organizações- ou melhor, por parte das pessoas que trabalham nelas. E sei que, se você for sincera, elas podem não te contratar simplesmente porque você tem esse projeto de engravidar no curto prazo. Lembre-se que essas empresas não têm qualquer vínculo emocional com você, então se estiver concorrendo com alguém que possui o mesmo perfil, há grandes chances de você ser preterida. Afinal, o período de licença-maternidade gera um ônus para a companhia.

Há exceções e você pode dar a sorte de topar com uma delas. Acompanhei o caso complicado de uma profissional que teve câncer no seio e passou por um tratamento traumático. Nesse período, ela parou de trabalhar. Seu caso, felizmente, foi dado como curado e, ao fim do tratamento, ela foi procurada por um headhunter dizendo que seu nome estava entre as candidatas a uma vaga em um grande grupo varejista. Ela agradeceu o contato e disse que não iria participar do processo porque havia acabado de passar por um tratamento de câncer. Pouco tempo depois, para sua surpresa, ela recebeu uma ligação do presidente daquela empresa que lhe fez a seguinte pergunta: "Por acaso você ficou menos competente depois do câncer?" No fim, ele a contratou.

Se você tiver um currículo impecável e a empresa te avaliar como um perfil "outstanding" após as entrevistas, eu diria que suas chances aumentam bastante. Também vale para o caso de você possuir alguma competência ou habilidade especial que seja necessária para aquela posição. Uma organização que valoriza os talentos pode avaliar que é mais vantajoso te contratar e correr o risco de ter sua ausência durante um período do que abrir mão de ter uma profissional de peso. Uma boa opção seria se você tivesse a chance de trabalhar temporariamente como terceirizada ou por projeto.

Supomos, agora, que você decidiu não contar dos seus objetivos pessoais nas entrevistas. Eu te diria que, na grande maioria das empresas, se você engravidar pouco tempo depois de efetivada, os profissionais que a contrataram se sentirão traídos.

Pense no seu projeto de vida. Afinal, a carreira pode sofrer uma pausa e ser retomada mesmo que sob algum custo. Já engravidar tem prazo de validade, apesar de muitas mulheres hoje conseguirem se tornar mães depois dos 40. Conheço muitas que deixaram a vida pessoal de lado em função da carreira e depois se arrependeram por não ter tido filhos. Independente da decisão profissional que você tomar, o importante é que ela permita com que você encontre o seu equilíbrio e seja feliz.

Vicky Bloch é professora da FGV, do MBA de recursos humanos da FIA e fundadora da Vicky Bloch Associados