Escolas devem educar líderes para ter uma visão ampla do mundo

Para Chakravorti, a questão global é tratada com superficialidade, especialmente pelas escolas americanas
Depois de derrubar fronteiras econômicas e de abrir mercados, a globalização deve atingir em breve mais um alvo: as escolas de negócios. A potencialização das mudanças ocorridas nos últimos anos como a crise, a recuperação financeira e o aumento do poder dos países emergentes tornaram o trabalho dos líderes mais complexo. A academia, por sua vez, não está acompanhando essa evolução de forma satisfatória.
Essa é a opinião de Bhaskar Chakravorti, vice-reitor da The Fletcher School of Law and Diplomacy, que esteve recentemente no Brasil para divulgar a instituição, reencontrar ex-alunos e prospectar outros novos. Por atuar também como educador, consultor e conselheiro em empresas, o indiano, radicado nos EUA desde o início dos anos 1980, conhece os dois lados da moeda e não poupa críticas ao modelo atual de educação executiva.

Para ele, as escolas de negócios preparam executivos para lidar apenas com questões técnicas como finanças, marketing, contabilidade, administração e logística, mas isso não é mais suficiente. "Um gestor moderno precisa combinar essas disciplinas com conhecimentos sobre política, sociologia, diplomacia, ambiente, relações internacionais entre outros."

Chakravorti afirma, portanto, que as escolas não formam líderes, mas "analistas superespecializados". Embora tenham competência para resolver problemas, eles são limitados e não conseguem enxergar um cenário de maneira mais ampla.

Além disso, as instituições saíram com a reputação abalada após a crise de 2008, acusadas de formar profissionais egoístas, arrogantes e que buscavam lucro acima de tudo - mas pouco fizeram para mudar. "Não adianta inserir algumas aulas sobre ética e responsabilidade na grade curricular e deixar o resto como estava. Esses assuntos devem permear todas as disciplinas e ser discutidos sempre."

A superficialidade com que as escolas de negócios, especialmente as americanas, tratam a globalização também incomoda o vice-reitor. "As aulas e os estudos de caso são quase que exclusivamente locais. O mundo, porém, não são os Estados Unidos", diz. Chakravorti acha pouco eficiente a estratégia bastante em voga de enviar os estudantes por duas ou três semanas para outro país. "Trata-se de uma solução fácil e defensiva."

Além disso, as escolas de negócios deveriam atualizar seus ex-alunos com cursos rápidos, conferências, pesquisas e networking. "Os executivos frequentam o programa com 28 anos, mas só vão tomar grandes decisões 10 ou 20 anos depois disso", afirma.

Fundada em 1933, a Fletcher é a mais antiga escola de relações internacionais dos EUA, pertence à universidade Tufts, e está localizada em Boston, no Estado de Massachussets. Em uma classe típica do programa de mestrado internacional, que dura dois anos, metade da turma é formada por estrangeiros.

Segundo o vice-reitor, essa diversidade de culturas, e também de 'backgrounds', é uma vantagem da Fletcher. "Não formamos somente executivos que querem atuar no mercado financeiro ou em consultorias. Temos alunos interessados também no setor público, em organizações não governamentais e em questões humanitárias, além dos diplomatas", diz.

Dentre os ex-alunos brasileiros, por exemplo, estão o reitor da USP João Grandino Rodas, o ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal (STF) e Paulo Bilyk, ex-sócio do Banco Pactual e presidente do conselho de administração da Rio Bravo.

De acordo com o vice-reitor, o histórico de crises e adversidades dos países emergentes deu aos seus executivos um conjunto de habilidades bastante completo. Os brasileiros, em especial, são resilientes, otimistas e dinâmicos. Mesmo assim, precisam de mais experiência internacional e um pouco mais de cautela com o entusiasmo que o momento favorável da economia traz.

O maior problema que o crescimento rápido vai trazer ao país, de acordo com Chakravorti, não está relacionado com infraestrutura nem com a volta da inflação, mas com a falta de talentos e de mão de obra qualificada. "É como dirigir um carro em alta velocidade. É muito bom, mas nem por isso deixa de ser perigoso. É preciso avaliar e saber como evitar os riscos", diz.