Na hora de sair, é melhor não contar com uma contraproposta Razões para troca de emprego devem ir além do dinheiro; muitas vezes, a sonhada negociação financeira pode não vir Você está achando que merece há algum tempo um aumento de salário. É sondado por uma empresa concorrente e pensa que é a hora de ganhar o esperado reajuste. Essa estratégia, porém, pode ser perigosa: mesmo em tempo de falta de profissionais, as empresas estão atentas aos funcionários que só buscam recompensa financeira. Segundo o vice-presidente de pessoas e organização da Braskem, Marcelo Arantes, a contraproposta é improdutiva. "Significa valorizar alguém que pensa no dinheiro, e não na carreira no longo prazo." Arantes, da Braskem: Negociação além do dinheiro (Foto: Tiago Queiroz/AE) Segundo consultorias em recursos humanos, as razões para uma mudança de emprego precisam estar claras na mente do profissional - quanto mais alto o cargo, mais estratégica é a decisão. O diretor de RH da Lenovo para a América Latina, Rodrigo Saez, trocou a Pepsico pela empresa chinesa há um mês. Por trás da mudança, além do fator financeiro, estava a meta de comandar uma operação regional, e não apenas brasileira. "Era algo que teria de esperar pelo menos dois anos na Pepsico", explica. "Além disso, minha experiência era em varejo. Achei importante migrar para a área de tecnologia." Ao comunicar sua saída, Saez não negociou para ficar na Pepsico. Como diretor de RH, ele também considera a contraproposta um ato de desespero da empresa. "Neste ponto, a pessoa já saltou do barco. O importante é avaliar como chegou até este ponto. O desafio das organizações é se antecipar nesse jogo de xadrez, perceber essa insatisfação." Para Marcelo Santos, da consultoria Doers, mesmo que o profissional seja vital para a operação, a empresa deve evitar sobrevalorizar um executivo em relação aos que permanecem em seu quadro. "Quando um concorrente quer atrair alguém, vai oferecer remuneração, chance de trabalho no exterior, oportunidade de estudo. Muitas vezes, um executivo pode economizar anos de trabalho para uma empresa novata no mercado", explica Santos. "Neste caso, gastar R$ 2 milhões com ele sai barato." Jogo aberto. Existem, entretanto, formas de evitar que profissionais sejam atraídos pelo canto da sereia dos altos salários. Para Arantes, da Braskem, a definição clara das tarefas para o ano - e da remuneração variável atrelada a elas - é uma maneira de garantir a transparência nas relações. "O próprio funcionário define seu desafio. Por isso, já sabe de antemão qual será a recompensa conforme as metas que ele estabeleceu. É a chance de a pessoa empresariar a carreira", explica o executivo. Com esse tipo de iniciativa, ele afirma que o giro de profissionais nos 280 cargos de liderança de petroquímica foi zero nos últimos 12 meses. Tanto Saez quanto Arantes concordam que, em um mundo ideal, o funcionário deveria ter abertura para comunicar uma conversa com outra empresa antes de receber uma proposta concreta. "É saudável ter um canal aberto com o gestor. Mas, neste caso, é preciso conhecer bem o chefe. Muitas vezes, a pessoa quer ser transparente, mas a iniciativa pode ser encarada como uma tentativa de leilão de salários", aponta o diretor de RH da Lenovo para a América Latina. Para as consultorias, é importante que o trabalhador reflita sobre os prós e os contras do processo seletivo no início das conversas. "Acontece o tempo todo. Depois de três, quatro meses de entrevistas e negociações, a pessoa desiste da vaga", diz Renata Lindquist, sócia-diretora da Mariaca. Para ela, é importante que o executivo seja seletivo sobre o perfil de vaga que lhe atrai - assim, mantém sua imagem em alta também entre recrutadores.


