Namorado é motivo para mudar de cargo?

Sofia Esteves responde

Trabalho há poucos meses em uma indústria de grande porte no interior de São Paulo. Estou feliz com meu emprego e liderando projetos importantes, mas sinto falta do meu namorado que ficou na capital. Recentemente, a companhia abriu uma vaga na sede e pensei em me candidatar para poder voltar para São Paulo. Tenho receio de comprometer meu futuro na empresa se levar essa mudança adiante. Seria melhor esperar outra oportunidade, mesmo sabendo que isso é raro de acontecer?

Engenheira de produção, 29 anos

Resposta:

Atualmente, um dos maiores desafios que enfrentamos é conciliar os desafios que surgem na vida profissional e os relacionamentos que construímos em nossa vida pessoal. Deixar para trás o namorado, a família e os amigos em nome de um desenvolvimento profissional não é fácil e pode mesmo envolver muitas dúvidas, receios e necessidade de fazer escolhas.

Essa questão de transferência de local de trabalho e candidatura a vagas internas varia de acordo com a cultura da organização na qual você trabalha. Conheço empresas em que essa mudança não seria um problema. Já para outras, esse pode ser um tema mais delicado.

O ideal seria conversar com o seu gestor ou com a pessoa de recursos humanos que atende a sua área, pois são eles que podem te trazer um panorama de como isso seria visto na empresa, já que você tem pouca vivência nela. Você tem que estar preparada para ouvir diferentes pontos de vista: que os desafios de uma organização hoje estão em diferentes lugares do país e do mundo (em alguns casos) e que fazer esse tipo de escolha e enfrentar esses sentimentos fará parte do seu amadurecimento e desenvolvimento profissional.

As mudanças têm um efeito construtivo, por mais desconfortáveis que sejam. No entanto, é preciso levar em conta que um colaborador insatisfeito com o impacto do trabalho na vida pessoal poderá ter um desempenho abaixo do esperado. Cada vez mais vemos profissionais buscando o equilíbrio entre esses dois mundos. As empresas estão a par disso, procurando se adaptar a essa nova realidade. Saber quais são os impactos das nossas ações no contexto onde estamos inseridos nos auxilia para balizarmos os caminhos que devemos seguir.

É importante você avaliar quais são as suas metas e as suas expectativas profissionais. Você deve estar atenta a oportunidades, mas também ciente dos sacrifícios que está disposta a fazer em nome da sua carreira. Aonde você se vê daqui a alguns anos? O que você pretende atingir? Essa nova oportunidade é interessante para o seu projeto de vida? Ela trará benefícios profissionais?

Uma coisa é certa: toda escolha é também uma renúncia, o que provoca um sentimento de insegurança. Quando fazemos escolhas, precisamos, ao mesmo tempo, decidir o que vamos perder. Temos que aprender a conviver com isso e tentar ao máximo refletir sobre a situação de maneira clara e racional. Ela deve ser analisada de todos os ângulos possíveis e com profundidade. Caso contrário, você corre o risco de fazer decisões pautadas em motivos inconsistentes.

Talvez a nova posição possa ser a solução para seu conflito pessoal, mas será que ela acrescentará algo para a sua carreira? Após a mudança, você continuará motivada? Recomendo que você mapeie a cultura da empresa e coloque na balança os impactos que isso poderia realmente trazer tanto para sua vida profissional quanto pessoal. Procure ter clareza sobre os seus objetivos de vida. No final, a escolha deve ser sua. Afinal, só você pode mensurar o quanto a saudade do seu namorado e a vontade de voltar para a capital são fatores tão ou mais importantes para você do que os desafios profissionais que já assumiu e os que ainda surgirão no futuro.

Sofia Esteves é psicóloga com especialização em recursos humanos e presidente do Grupo DMRH