Posso recusar um cargo de liderança?
Marco Túlio Zanini responde
Tenho um trabalho técnico bastante especializado e adoro o que faço. Os gestores da companhia reconhecem meu bom desempenho e começaram a sugerir que eu poderia assumir um cargo de liderança. Nunca havia me preocupado muito com isso, mas agora essa oferta se concretizou. Se aceitar a promoção, deixarei de exercer minha atual função para gerenciar pessoas e liderar uma equipe. O problema é que só de pensar nisso já fico desmotivado. Não tenho vontade de assumir esse papel e me sinto feliz em um trabalho mais técnico, que é o que eu realmente sei fazer. Recusar essa promoção pode arruinar minha carreira?
Analista, 33 anos
Resposta:
Essa é uma pergunta de difícil resposta, pois depende de como a carreira técnica é percebida e qual é o sentido que a promoção possui dentro da cultura da organização em que você trabalha. Em uma organização que tem espaço para a diversidade (de perfis, de habilidades e de competências), em que a carreira técnica é valorizada e onde há possibilidade de crescimento em carreiras em Y, a afirmativa de que você é melhor técnico do que gestor pode ser vista como prova de maturidade profissional e autoconhecimento. Já em empresas que valorizam o foco em resultados rápidos, onde a ascensão dentro da hierarquia é vista como a única forma de crescimento profissional, a sua recusa em aceitar a promoção pode ser interpretada como falta de ambição e dificuldade em aceitar desafios.
É importante avaliar, portanto, a cultura da empresa e o significado da promoção e da recusa dentro dela. Uma organização que acredita e investe na inovação, em processos de capacitação e no desenvolvimento de pessoas, tende a ter uma cultura mais aberta a profissionais que preferem uma carreira técnica. Já uma empresa voltada para resultados rápidos prefere contratar talentos prontos no mercado e aposta mais no turnover de empregados como forma de selecionar os perfis desejados.
Se você estiver em uma carreira técnica estratégica em uma organização voltada para a inovação, como um profissional de pesquisa e desenvolvimento, provavelmente a sua recusa será mais bem interpretada do que se a sua carreira for de um perfil mais executante, voltado para o desenvolvimento de tarefas técnicas de suporte a processos organizacionais mais rotineiros. No primeiro caso, há mais chances da recusa ser interpretada como opção por um trabalho criativo, onde você tem chances de desvelar as suas competências e aceitar desafios de complexidade significativa, mas de natureza distinta dos de liderança. No segundo caso, a recusa pode ser vista como acomodação, falta de ambição ou de vontade de crescer - e ai as consequências para a sua carreira podem ser maiores.
Não há nada de errado na escolha profissional por carreiras mais voltadas para a execução de rotinas técnicas. Essa deveria ser uma questão de escolha pessoal. Na realidade, organizações que sabem valorizar os diferentes perfis profissionais acabam por conseguir pessoas mais satisfeitas em diferentes funções e uma melhor gestão de talentos. Outras, que exageram nos esforços por conseguir pessoas com perfil mais agressivo e de liderança, aumentam a competição interna por cargos e dificultam a construção de times com boa cooperação interna.
É importante levar em conta, também, que talvez não valha a pena aceitar um cargo que não está alinhado com as suas preferências pessoais. Mesmo que no curto prazo você avalie que esta seja a única alternativa, o ideal é que você comece a trabalhar a sua rede de relacionamentos em busca de outra posição fora da empresa, mais adequada ao seu talento. Caso contrário, você corre o risco de perder a reputação de bom técnico e não vai ter motivação, como você mesmo reconhece, para se tornar um bom líder.
Marco Túlio Zanino é professor de gestão de ativos intangíveis e estratégia de pessoas da Fundação Dom Cabral


