Uma questão de mérito ou de favorecimento? Sofia Esteves responde Atuo em uma multinacional alemã e todos os anos a empresa manda alguns gerentes para um encontro anual de relacionamento entre os representantes das várias empresas do setor. O evento acontece cada vez em um país diferente. Como estou no cargo há três anos e tive ótimos resultados, estava confiante de que seria indicada. Há seis meses, porém, uma nova gerente foi contratada e, mesmo sem tempo de apresentar resultados, ela foi a escolhida para a viagem. Fiquei chateada e não sei se devo expor minha insatisfação aos chefes. Tenho medo de parecer inveja, quando acredito que é uma questão de meritocracia. O que fazer? Gerente comercial, 33 anos: Resposta: A palavra meritocracia vem do latim mereo que significa obter, merecer, e pode ser definida como forma de atuação baseada no mérito. Nela, as posições hierárquicas e outras recompensas são conquistadas pelos colaboradores que atingem os resultados esperados e apresentam as competências estratégicas, de liderança e técnicas estabelecidas pelas organizações. São muitas as empresas que aplicam critérios meritocráticos em seus sistemas de reconhecimento, recompensa e gestão. Elas têm como objetivo valorizar e reter os colaboradores que fazem a diferença nos negócios. A globalização influenciou, e muito, na difusão da cultura meritocrática nas organizações aqui no Brasil. As primeiras foram as multinacionais de grande porte, que há mais ou menos dez anos praticam esse modelo de gestão. Atualmente, são vários os mecanismos que as empresas usam para reconhecer e recompensar esses colaboradores (nível executivo a operacional) que atingem os resultados qualitativos e quantitativos: ascensão na hierarquia, aumento do salário fixo, impacto na remuneração variável, viagens, treinamentos, bolsas de estudo entre outros. No seu caso, a empresa parece usar de um desses mecanismos citados, como o encontro anual de relacionamento. Devem existir outros mecanismos, mas percebo que este é bastante valorizado por você. As metas meritocráticas servem para nos estimular a alcançar os resultados esperados. Com isso, geram ação, mas também expectativa e a possibilidade de frustrações e comparações, como a que você descreve. As políticas de RH das empresas que estabelecem esse modelo de gestão devem ser construídas levando em conta todos os tipos de consequências de uma cultura de meritocracia. Você, por exemplo, está se sentindo desmotivada e parece não saber o motivo de não ter sido escolhida. Se a sua empresa aplica esse modelo de gestão, ela deve ter um método claro de desdobramento de metas. Analise friamente se os resultados da sua colega são menos consistentes que o seu. O que você está comparando é o mesmo que a empresa está comparando? Como você tem sido vista pela sua equipe e clientes? Quais "feedbacks" têm recebido? Este é um indicador de como seu desempenho tem sido analisado no dia a dia. Não dá para deixar essa reflexão apenas para o período da divulgação dos resultados. Caso tenha abertura com seu chefe, questione a decisão usando um tom de querer entender para poder se desenvolver, e não de crítica ou reprovação. Seja transparente com você mesma em relação às razões dessa insatisfação. Caso ela esteja relacionada à meritocracia, não se compare à colega, mas sim às metas estabelecidas pela empresa. Isso tirará uma possível impressão de que está agindo por inveja. Busque entender com o seu gestor como poderia ter feito melhor ou diferente para se aproximar dos resultados esperados. Aproveite para esclarecer suas dúvidas, aprender com a experiência dos demais e se preparar para alcançar os seus objetivos no próximo ano. Sofia Esteves é psicóloga com especialização em recursos humanos e presidente do Grupo DMRH


