Como lidar com ofensas de trabalho em um blog? Gilberto Guimarães responde Uma de minhas colegas de trabalho escreve um blog popular de forma anônima. Os textos reproduzem claramente o dia a dia da companhia na qual trabalhamos e um dos personagens é baseado em mim - inclusive descrevendo as roupas que uso e a maneira como falo. O problema é que fui retratado de maneira muito desagradável e pejorativa. Sinto-me ofendido e temo que isso possa prejudicar minha imagem, uma vez que outras pessoas da empresa leem o blog. Já cheguei a pedir para que ela parasse com isso, mas ela negou ser a autora do blog. O que devo fazer? Executivo de marketing, 31 anos Por que você acha que o personagem do blog é você? Como você consegue identificar pelo texto do blog as roupas que você usa e a maneira como você fala? Seriam tão diferentes assim? Não é muito fácil se vestir de forma diferente em um ambiente de trabalho e muito menos conseguir ser identificado pelas expressões verbais. O pior é que parece que você não gosta de parecer com o personagem, apesar de se identificar com ele. Talvez você seja diferente e isso dificulta sua aceitação pelo grupo. Talvez não haja nada errado com seu comportamento. Você faz parte de uma equipe, mas não precisa ser igual a todo mundo. Sou consultado com frequência sobre quais são as melhores pessoas para compor equipes. Qual é o perfil ideal, como avaliar e escolher. Sinto por trás desse questionamento uma angústia das pessoas com suas próprias características e uma busca insana de mudar para ser o que o "mercado" espera. Lembro de um texto de David Ogilvy, o grande publicitário, de quando sua agência buscava um diretor de criação. Pediram a ele que definisse quem queria e sua resposta veio no seguinte anúncio cuja chamada era: "Cisnes que trombeteiam: temos uma vaga para uma dessas aves raras." E continuava. "Admiramos profissionais com altos padrões de ética e moral - gente grande, sem insignificâncias - corajoso sob pressão e flexível na derrota. Capacidade para o trabalho árduo e gás para virar noites. Cérebros brilhantes, inovadores e criativos. Entusiastas, inspiradores, otimistas. Com senso de humor, simpáticos e gentis. Intolerantes com a preguiça, sinceros ao ponto da indiscrição, cultos e organizados. Que saibam delegar, que formem seus subordinados, que inspirem confiança e orgulho, que abominem segredos e politicagem. Que saibam desenvolver parcerias e camaradagem, que sejam objetivos e voltados ao resultado. Que sejam bons vendedores, mesmo que apenas de suas próprias ideias". Que tal? Parece bom, mas não vou tão longe. Prefiro usar as técnicas clássicas das religiões que, ao invés de definir tudo que se pode fazer, optam por determinar aquilo que não se pode, aquilo que é proibido - os poucos pecados capitais, os poucos "nãos". Fica mais fácil: "se não é pecado, pode ser feito". O que precisa ser conseguido na montagem de uma equipe é criar a sinergia do grupo, ou seja, talentos e competências individuais devem ser somados para que o resultado da ação conjunta seja superior à atuação de cada um. Para isso, não basta juntar os melhores talentos individuais. Aliás, na maioria das vezes, equipes de "estrelas" têm problemas de funcionamento e acabam gastando muito mais tempo para tomar decisões. A escolha correta deve se basear nas habilidades e competências complementares para que ocorra sinergia, e na capacidade de cada indivíduo de contribuir para as metas e objetivos do projeto. Isso exige uma seleção minuciosa. Não é um evento, mas uma tarefa contínua e permanente. Mais importante do que tentar ser igual, é saber ser diferente. Gilberto Guimarães é diretor do MBA em liderança e gestão de pessoas da Business School São Paulo e presidente da multinacional francesa BPI no Brasil


