Sofia Esteves responde
Gosto da minha atual empresa e acredito que tenho chances de desenvolver minha carreira nela. Mesmo assim, meu gestor não parece ter em mente uma promoção ou aumento de salário para mim no curto prazo. Recentemente, participei de um processo seletivo em outra companhia na qual sempre tive vontade de atuar e fui aprovado. Estou pensando em usar isso como uma ferramenta para melhorar minha situação na atual empresa. Como devo conduzir esta negociação?
Engenheiro de produção, 33 anos
Resposta:
O mercado está aquecido, é fato. Estamos passando por um período de retomada, com muitas oportunidades de trabalho e desafios diversos sendo oferecidos pelas empresas. Enquanto em 2009 a divisão especialista da DMRH, consultoria pela qual sou responsável, trabalhou 257 vagas de analistas a média gerência, em 2010 esse número já chegou a 320. No ano passado, 66% dos candidatos que participaram dos nossos processos estavam empregados. Este ano o número saltou para 87%. Não há dúvida de que houve um aumento da oferta de emprego e a sua pergunta reflete bem esse momento.
No entanto, o seu questionamento aborda outro ponto importante: o crescente número de profissionais que têm recusado novas ofertas de trabalho por receberem uma contraproposta. Em 2009, 19% dos candidatos finalistas dos processos seletivos que gerimos recusaram o novo emprego em função de salários maiores oferecidos pela empresa que atuavam. Já em 2010, esse número passou para 85%. Não são impressionantes esses números?
Não estou dizendo que todos os profissionais têm o intuito de negociar um aumento salarial quando entram em um processo seletivo de outra companhia. Você mesmo afirmou que a empresa da qual participou da seleção sempre te agradou. Ou seja, o interesse foi além da possibilidade de "valorizar o seu passe", não é mesmo? Porém, aí reside outro perigo: o da ausência de visão em longo prazo dos profissionais e a construção de seu planejamento de carreira em cima de valores salariais.
É claro que o salário é importante, não sejamos hipócritas, mas só ele não constrói uma carreira. Durante a crise me deparei com vários profissionais repensando escolhas e priorizando aspectos diferentes de remuneração, já que o momento não era favorável. Agora, com o aquecimento do mercado, o profissional tem colocado a proposta salarial em primeiro lugar.
Você mencionou que visualiza crescimento na empresa onde está. Então, a conversa com o seu gestor não deve ser encarada por você apenas como uma negociação salarial. Reúna os reais motivos que te levaram a se interessar por outra empresa: o que mais, além do salário, chamou a sua atenção? O que está faltando na sua atual função e empresa? Por que você acha que só consegue um aumento ao falar que recebeu uma outra proposta?
As empresas precisam ficar atentas em como estão valorizando seus colaboradores e o quanto estão falando sobre o tema. Se o profissional não visualiza crescimento ou não tem certeza se a empresa reserva oportunidades futuras para ele, parece evidente que ele vai procurar outra empresa. Muitas empresas só mostram para seu funcionário perspectivas salariais e de crescimento no momento de uma contraproposta.
Não se apegue somente ao salário para decidir a sua permanência ou não na empresa. Vá para esta conversa com as respostas dos reais motivos que te levaram a se interessar por outra empresa e construa seu planejamento de carreira a partir de pilares que permitirão que sua carreira seja sustentável e de muita realização pessoal.
Sofia Esteves é psicóloga com especialização com recursos humanos e presidente do Grupo DMRH.


