Os gravadores da memória corporativa

Recursos humanos: Depoimentos em áudio e vídeo de antigos funcionários oferecem nova visão da companhia

Por Alicia Clegg, do Financial Times
 
Quando David Booth, executivo chefe da Dimensional Fund Advisors, uma firma de investimentos dos EUA, prospectou formas de fazer recém-contratados sentirem que são parte do negócio que co-fundou em 1981, ele pensou em produzir uma história da companhia. Então, reuniu membros da equipe original e os fez falar diante de uma câmera a respeito das suas lembranças mais remotas sobre a criação pioneira de produtos de investimento. "A palavra escrita é excelente", diz Booth. "Mas ver e ouvir as pessoas faz você sentir um vínculo pessoal."

Algumas companhias sempre incentivaram os empregados a contribuir com suas recordações para revistas internas. Com o advento da digitalização, porém, as palavras das pessoas e a emoção por trás das suas memórias podem agora ser capturadas em filme, "baixadas" para o site da companhia ou transformadas em vídeos para serem dados aos clientes. A combinação de tecnologia e narração de histórias cria uma vasta gama de possibilidades para as empresas darem vida aos seus produtos de forma criativa, bem como para transmitir conhecimento e habilidades de uma geração de empregados à seguinte. Por meio das memórias dos veteranos, as companhias esperam construir culturas mais sólidas.

Bruce Weindruch, fundador e executivo chefe da "The History Factory" (A fábrica da história), que realizou as entrevistas da Dimensional, ganha a vida escrevendo histórias que comemoram aniversários corporativos. Ele está convencido de que, em breve, a tecnologia de transmissão substituirá a palavra escrita completamente. A maioria dos livros que a The History Factory produz vem com um DVD que contém extensas entrevistas. No futuro, ele prevê, muitas companhias vão querer apenas relatos verbais "ou um livro digital com elos de hipertexto (hyperlinks), que os leitores podem clicar para acessar uma entrevista com uma pessoa real."

A história que os funcionários contam pode ser muito distinta da versão oficial de eventos descritos em relatórios anuais, minutas da diretoria e documentos produzidos pela matriz. A "National Life Stories" (Histórias de vida nacionais), uma fundação independente que está dentro da British Library Sound Archive (Arquivos de som da Biblioteca Britânica), está compilando uma história oral do Barings Bank com a ajuda de empregados antigos que trabalharam no Barings desde a década de 1950 até, e incluindo, sua derrocada, em 1995.

O diretor da National Life Stories, Robert Perks, diz que estudar as companhias através do prisma da experiência pessoal confere aos historiadores uma posição privilegiada sobre as subculturas que residem no interior de hierarquias formais. "O que a história da vida nos conta é o que realmente estava acontecendo nos bastidores; que conversas as pessoas mantiveram entre si e quais foram as reflexões sobre os eventos subsequentes."

Ele espera que as entrevistas do Barings, que se estendem por todo o espectro do banco, desde membros da família Baring, passando por operadores do mercado financeiro, pessoal administrativo e até o mordomo do banco, esclarecerão parte das tensões culturais que existiram no interior da organização e que, em última análise, podem ter contribuído para seu colapso.

A escuta das lembranças das pessoas pode revelar detalhes sobre os quais os registros escritos oficiais silenciam. A entrevista com esposas de administradores de banco para uma história do HSBC no sudeste asiático revelou que o banco havia empregado mulheres nos seus escritórios de Xangai e Hong Kong já na década de 1920. "Foi algo que não havia sido registrado nas nossas fontes documentais e sobre o qual não tínhamos nenhuma menção histórica", diz a arquivista Helen Swinnerton, do HSBC na região Ásia-Pacífico.

Mas será que as companhias podem ter certeza de que as recordações das pessoas sobre o que aconteceu refletem o que realmente aconteceu? David Kirsch, professor titular de empreendedorismo e estratégia na Universidade de Maryland, EUA, diz que a história oral sofre "com as distorções inevitáveis associadas com a mente humana". Esses pontos fracos e a facilidade de incorrer em erro incluem memória fraca e a tendência de pessoas do alto escalão atribuírem para si o crédito para projetos que lograram êxito, enquanto minimizam sua parte em eventos que não tiveram sucesso. O outro lado disso, diz Kirsch, é que as narrativas pessoais permitem às pessoas "fazer conexões que jamais teriam feito analiticamente."

Alguns entrevistadores dizem que aposentados e empregados que estão diminuindo o ritmo antes da aposentadoria podem ser mais sinceros do que colegas mais jovens, que seguem as políticas da companhia. Nas semanas que antecederam sua saída, Helen Fraser, diretora-gerente para o Reino Unido da Penguin Books, entrevistou ex-empregados para um vídeo que a Penguin publicará neste ano para seu 75º. aniversário. Entre as notícias que descobriu, estava o relato franco de como as disputas sindicais paralisaram a companhia na década de 1970 e uma "arrepiante" recordação de como Allen Lane, o venerado fundador da empresa, convidou o seu vice Tony Godwin, adepto de reformas modernizantes, para jantar, com o propósito de demiti-lo. Fraser diz que seu entrevistado lembrou que "Godwin estava muito entusiasmado por ter um jantar com o patrão". Em seguida, reduzindo seu tom de voz de forma conspirativa, acrescentou: "Mas eu sabia o que estava para acontecer."

Enquanto a maioria das companhias considera a história como uma forma de construção de marca, uma minoria está genuinamente ansiosa em aprender com a experiência. No setor bancário, historiadores orais estão se preparando para capturar reflexões sobre a catástrofe financeira recente. A arquivista do grupo Barclays, Maria Sienkiewicz, tem planos de fazer uma longa entrevista de despedida da companhia com John Varley, o executivo chefe do banco, quando ele sair ou se aposentar. Mas ela espera que ele não tome uma iniciativa por enquanto. "Penso que será muito difícil entrevistar alguém agora sobre a situação, uma vez que os eventos estão tão próximos", diz. Nem todas as companhias pensam que as memórias precisam de tempo para maturar. A The History Factory tem clientes do setor de tecnologia de ponta que tratam os acontecimentos atuais como história em ação.

Weindruch menciona uma companhia que sobreviveu a uma tentativa de aquisição de controle hostil. Assim que a crise passou, convidei o The History Factory para interrogar os diretores que haviam rechaçado o potencial comprador. Em outras ocasiões, a The History Factor foi convocada para incorporar seus historiadores em equipes que estão desenvolvendo novos produtos, para que o drama dos momentos de grande avanço pudesse ser capturado conforme os eventos se desenrolavam. Weindruch tem um nome para o fenômeno: "história em tempo real". Esta é uma forma de resolver o problema de determinar se as recordações do que aconteceu realmente refletem o que aconteceu. (Tradução de Robert Bánvölgyi)

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