Procuram-se jovens funcionários

Por: Cintia Shimokomaki
Gazeta Mercantil

São Paulo, 26 de Março de 2008 - A criatividade e a motivação dos jovens são um atrativo para muitas pequenas e médias empresas interessadas em contratar novos funcionários. Fugindo da corrente da maioria do mercado, algumas empresas apostam na falta de experiência do jovem - considerada uma vantagem - e o posicionam em atividades de destaque. Para essas empresas, o jovem não é mão-de-obra barata, e sim um colaborador altamente especializado.

Em alguns setores, o conhecimento e a dedicação do jovem são essenciais. "Há excelentes oportunidades para os jovens nas pequenas e médias empresas", acredita o professor de Empreendedorismo, Tales Andreassi, da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP). "Existem nichos no mercado, tais como consultorias de investimento e o setor de informática e internet, em que o jovem é contratado para áreas extremamente especializadas", aponta. Para o professor, menor porte não significa falta de oportunidade: nesses setores. As pequenas e médias empresas são extremamente competitivas e a perspectiva salarial é maior.

Mesmo em áreas distantes da alta tecnologia, o jovem leva vantagem sobre os mais experientes. É o caso do mercado editorial de livros. "Gostamos de trabalhar com jovens porque existem minúcias que um funcionário mais antigo não consegue identificar", revela Cleunice Abe, gerente administrativa da Millennium Editora, especializada em livros jurídicos e de meio ambiente. Ela destaca a participação dos jovens na produção de livros, principalmente na revisão da diagramação geral. "É um trabalho refinado: eles ajustam o material aos padrões da Associação Brasileira de

Normas Técnicas (ABNT)", explica. Dos 20 funcionários da editora, cinco possuem entre 18 e 24 anos.

O comprometimento do jovem é outro ponto forte apontado pelos especialistas. "O jovem agarra a oportunidade com unhas e dentes e sabe dar valor ao trabalho", explica Sonia Carminhoto, diretora do Grupo Soma, especializado em recursos humanos.

No entanto, a falta de preparo do jovem significa um maior período de treinamento. "Precisamos ensinar conceitos básicos, como, por exemplo, o que é uma nota fiscal", afirma a gerente administrativa da Millennium. Ao longo de quatro semanas, os jovens que ingressam na empresa passam por um programa de treinamento que ensina noções teóricas e práticas do mercado.A inexperiência é uma realidade do mundo profissional. "O jovem não é preparado para o mercado de trabalho", lamenta José Roberto Cunha, consultor de Orientação Empresarial do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de São Paulo (Sebrae-SP). O especialista acredita que a educação do jovem no ensino médio deve incluir não só cultura geral, mas também conhecimentos de práticas de negócios, principalmente sobre o comportamento profissional.

Para suprir essa deficiência, Cunha sugere priorizar o ensino técnico e a criação de cursos setoriais, em parceria com entidades de classe, como os sindicatos e o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). "Ao agrupar empresas do mesmo setor, os custos podem ser diluídos", explica. "Elas são concorrentes, mas também podem ser aliadas quando há interesses convergentes", diz.

A presença do jovem no mercado de trabalho é expressiva. A população na faixa etária entre 16 e 24 anos soma 6,5 milhões de empregados, segundo pesquisa mais recente sobre o jovem no mercado de trabalho, publicada pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese) em 2006. Desse total, 4,6 milhões fazem parte da força de trabalho, o que representa 25% da População Economicamente Ativa (PEA), revela a pesquisa realizada nas principais regiões metropolitanas do País.

Entretanto, mais de 25% dos jovens dessa idade enfrentam dificuldades para encontrar trabalho, aponta o Dieese, sendo a baixa escolaridade um dos maiores desafios. O setor de serviços foi o que mais empregou jovens, seguido pelo de comércio e o de indústria, respectivamente.

Para os especialistas, as empresas devem dar mais oportunidades ao jovem. "O mercado precisa investir no jovem. Um dia, o empresário começou e não foi por cima", diz o consultor do Sebrae. Algumas empresas já apontam para esse caminho. É o caso do Grupo Soma e da ONG Ação Comunitária, que criaram um programa que estimula as empresas a contratarem jovens carentes em seu primeiro emprego. Para esses jovens, recém-formados do ensino médio, são ofere-cidos empregos em áreas como atendimento ao público, telemarketing e auditoria de caixa. "O retorno das empresas é de satisfação", garante a diretora do Soma.