Por ambiente de trabalho, jovens sonham com o Google Por Roberta Lippi, para o Valor, de São Paulo Estes são os fatores que mais pesaram para levar o Google, pela primeira vez em 2010, a ocupar o topo do ranking da pesquisa Empresa dos Sonhos dos Jovens, promovida pela Cia. de Talentos, desbancando os cinco anos anteriores de liderança da Petrobras. O item ambiente de trabalho foi o mais importante entre os motivos apontados pelos jovens que sonham em trabalhar no Google - a companhia teve o dobro da média das outras organizações citadas. O fator qualidade de vida veio em segundo lugar, com o mesmo desempenho em relação às demais. Vale ressaltar que, embora atraia tanto o interesse dos jovens estudantes, o Google não contrata trainees ou estagiários. No Brasil, o Google conta com cerca de 200 funcionários na sede, em São Paulo - atuando especialmente na área comercial e administrativa - e outros 60 em Belo Horizonte, onde se concentra a equipe de engenheiros, programadores e gerentes de produtos, responsáveis por criar as ferramentas e novos produtos. "O ambiente físico é o menos importante, até porque outras empresas também oferecem atrativos. O diferencial aqui é a cultura, a liberdade de se determinar onde e como se quer trabalhar", diz Felix Ximenes, responsável pela comunicação do grupo. Os chefes delegam as tarefas e metas, mas a maneira de atingí-las fica a critério de cada um, desde que a performance esperada seja alcançada. Se o funcionário joga uma partida de sinuca às três da tarde e volta ao trabalho altamente produtivo, é isso que importa na filosofia da empresa. O diálogo franco, os trabalhos constantes em times multifuncionais e multiculturais, as oportunidades de crescimento rápido e de construção de uma carreira internacional são outros fatores que pesam a favor da companhia. O índice de rotatividade é baixo: menos de 1% parte para a concorrência. "O Google fala a mesma língua dos jovens. Eles não querem ter barreiras entre o profissional e o pessoal", afirma a presidente da Cia. de Talentos, Sofia Esteves, responsável pela pesquisa. Além de ser um produto conhecido e usado pela grande maioria dos jovens, o Google deve sua imagem positiva especialmente ao marketing da empresa, que a posiciona como um lugar agradável e com práticas modernas de gestão de pessoas. Em seu maior processo seletivo na América Latina, que está em curso com cem vagas abertas - a maior parte no Brasil -, o volume de interessados tem sido impressionante: foram mais de 31 mil acessos ao "hotsite" específico na internet somente nas primeiras 12 horas. Evidentemente, não é qualquer perfil de profissional, mesmo talentoso e experiente, que se encaixa nessa cultura tão diferenciada. Por isso, o processo seletivo é rigoroso e cheio de etapas. Todas as contratações, sem exceção, têm de ser aprovadas pelo presidente local, por um colegiado internacional e pelo grupo do qual participam o presidente da matriz nos Estados Unidos, Eric Schmidt, e seus principais executivos diretos. E a reportagem do Valor está de prova. O CEO para a América Latina, Alexandre Hohagen, que fica em São Paulo, não pôde conceder entrevista à reportagem no dia da visita ao escritório porque estava com uma pilha de "pacotes de contratação" sobre sua mesa para serem avaliados antes de sua viagem para o exterior, no dia seguinte. O processo de entrada nessa empresa que fatura globalmente US$ 27 bilhões é levado muito a sério. Para se ter uma ideia, um candidato pode passar por até oito ou dez entrevistas antes de ser contratado. Na visão da empresa, porém, essa burocracia não atrapalha. "O Google se preocupa muito com a qualidade do processo seletivo. Fazemos um trabalho forte na entrada porque queremos que a pessoa fique na empresa", diz o diretor financeiro para a América Latina, Edmundo Balthazar, um dos primeiros funcionários no Brasil. Junto com Hohagen e outros cinco executivos, todos ainda na companhia, Balthazar estruturou o escritório no país em 2005 e garante que o Google procura manter constantemente essa cultura de "start up". "As mudanças nesse setor são tão intensas que quase todos os meses temos uma nova empresa surgindo", afirma ele, que já atuou na PricewaterhouseCooopers, IBM, Motorola e Intelig. Há cinco anos no Google, Adriana Grineberg também figura na lista dos funcionários mais antigos e que cresceram junto com a empresa no Brasil. Começou suas atividades como gerente júnior de vendas e, há dois anos, foi promovida a diretora de negócios. "Quando entrei, não tinha experiência para um cargo de direção, mas construí isso aqui. A liderança é muito estimulada", diz a executiva, hoje com 35 anos. Para Adriana, um dos grandes desafios como gestora é encontrar o limite da democracia e da flexibilidade para que se possa conduzir o negócio de forma organizada. Desse modo, deixar clara a estratégia organizacional desde o início é fundamental. "O que me faz permanecer nessa empresa é ter a chance de lidar com pessoas inteligentes, que agregam valor e estão sempre com vontade de ajudar", diz. Para o gerente de vendas Rodrigo Rodrigues, de 31 anos, há menos de dois anos na companhia e com histórico de trabalho no mundo digital, o maior atrativo do Google é a sua capacidade de inovação. Em 2008, quando foi indicado por um colega para participar de um processo seletivo na empresa, ele não estava à procura de emprego. "Mas era o Google, e eu não poderia perder a oportunidade", lembra ele, que se surpreendeu também com o nível de colaboração dos colegas e com a forte troca de informações e experiências com os escritórios fora do país.
Difícil não se encantar pelo ambiente de trabalho do Google. Afinal, em plena Copa do Mundo, quem não sonha em poder se sentar confortavelmente em um sofá com seu laptop, em frente à televisão, e trabalhar ali enquanto acompanha o jogo entre Espanha e Portugal nas oitavas de final - e sem receber um olhar repreensivo do chefe? Ou ter a sua disposição, de graça, chocolates, biscoitos, sorvete, salgadinhos, refrigerantes, sucos, frutas e outras guloseimas no simpático refeitório da empresa? Melhor ainda: ter videogame, mesa de sinuca e massagem com pedras aromáticas disponíveis durante o expediente, além de decorar a própria baia com todos os apetrechos que desejar e não precisar usar roupas formais?
Engana-se, porém, quem pensa que a vida por ali é fácil. Esse ambiente informal serve para incentivar a criatividade de um time que trabalha duro para alcançar os resultados. Existe uma pressão forte pelo aumento da audiência das ferramentas de busca e dos vídeos na internet, além da cobrança pela prospecção de novos clientes.


